Memória de trabalho e o raciocínio

Vamos ver sobre uma parte do nosso sistema de memória que é crucial para o aprendizado: a memória de trabalho.

Conversaremos sobre a evolução do modelo desse sistema e ainda (e mais interessante) o impacto dele no momento em que precisamos raciocinar.

Gostaria de começar com um teste. Topa?

Não é um teste, relacionado a técnicas de memorização, para separar os bons dos ruins.

É para que, simplesmente, você use sua memória de trabalho sabendo que está fazendo o uso da mesma.

Vou colocar aqui cinco palavras para que você leia com atenção e mantenha elas em mente.

Somente um aviso antes…

Como a ideia aqui é avaliar a memória de trabalho, então, leia as palavras uma vez (com atenção e sem fazer anotações) e prossiga o artigo. Combinado?

Aqui estão elas:

  • três;
  • estrada;
  • espelho;
  • saturno;
  • eletrodo;

Quero agora colocar três perguntas para que você responda.

Fique tranquilo que não são pegadinhas, são perguntas simples mesmo 🙂

A primeira é uma conta matemática:

Quanto é 23 vezes 8?

Fez o cálculo? Então vamos em frente…

Essa segunda não é bem uma pergunta.

Olhe para sua mão esquerda e use os dedos para contar até dez.

Isso mesmo, simplesmente, contar até dez.

1, 2, 3, 4, 5 … 6, 7, 8, 9, 10

Por último…

Quais são as cinco últimas letras do alfabeto?

Lembrou das cinco últimas?

Bom… Agora tente falar novamente as cinco palavras que apresentei para você. De quantas você lembrou?

Chances são que quem lembrou de mais palavras tem uma memória de trabalho melhor. Só que eu não quero que você se atenha a isso.

Até porque alguém com uma memória de trabalho menor que a sua pode ter lembrado de mais palavras, simplesmente, por ter mais familiaridade com elas.

O importante aqui é você entender que estava fazendo uso, um pouco mais intenso, da sua memória de trabalho.

Enquanto tentava manter as cinco palavras em mente você respondeu três questões as quais precisou raciocinar para chegar a uma conclusão.

O QUE É MEMÓRIA DE TRABALHO?

São frequente os momentos em que temos que manter alguma informação em mente, armazenando ela e esperando o momento de usa-la:

  • Lembrar um telefone do instante em que escuta até o momento de digita-lo;
  • Resolução mental de cálculos matemáticos;
  • Na leitura de um texto;
  • Recordar de um caminho enquanto procura os pontos de referência que o ajudaram a chegar onde deseja;
  • Dar uma opinião sobre o que está sendo discutido em sua roda de amigos;
  • Planejar o próximo movimento no jogo de xadrez;

Em situações como essas você necessita manter a informação em mente e também fazer algum tipo de processamento para chegar a uma nova conclusão.

Esse breve armazenamento juntamente com o processamento dessas informações nós chamamos de Memória De Trabalho.

A maioria dos estudiosos em neurociência usam o termo memória de trabalho em detrimento ao termo memória de curto prazo.

Essa preferência se da ao fato da ênfase na manipulação de informação em vez de manutenção passiva.

“Memória de trabalho é a parte do sistema de memória humano de capacidade limitada que combina armazenamento e manipulação da informação a serviço da cognição.” –

scholarpedia.org

A metáfora do quadro negro

Você deve pensar na memória de trabalho como se fosse um quadro negro.

Ou seja, é um lugar que prove um espaço para armazenar alguma informação temporária e acessível.

Depois que a informação é utilizada a mesma é apagada.

Metáfora do computador

Uma outra boa comparação seria com um computador.

Nele existem, basicamente, duas formas de armazenar informação: disco rígido (o HD) e a memória RAM.

O disco rígido é onde as informação são gravadas permanentemente.

Todos os softwares, documentos e o próprio sistema operacional ficam no disco rígido.

Quando você aciona esses programas ou arquivos, eles são carregados na memória RAM para que sejam acessados com velocidade, tornando mais fácil o trabalho dos mesmos.

A comparação que podemos fazer é:

O disco rígido é como se fosse a nossa memória de longo prazo e a memória RAM seria equivalente a memória de trabalho.

A triste diferença é que no computador você pode incrementar a memória RAM, mas, não pode fazer isso com sua memória de trabalho.

EVOLUÇÃO DO MODELO

Não é nova essa ideia de que existe um armazenamento temporário a serviço da cognição.

Inclusive os próprios termos usados para definir esse tipo de memória mudaram com o tempo:

Passaram por Memória Primária, depois Memória De Curto Prazo e, por fim, Memória De Trabalho.

William James: Memória Primária, Memória Secundária e Consciência

William James (1842-1910) sugeriu, em seu livro The Principles of Psychology (1890), a possibilidade da memória ser composta por dois sistemas: memória primária e memória secundária.

James sugeriu a memória primária como sendo o lugar onde a informação é disponibilizada para inspeção consciente, atenção e instrospecção. Ou seja, memória de curto prazo.

Já a secundária seria equivalente a memória de longo prazo.

Para ele a informação não poderia passar da primária para a secundária sem que se iniciasse um processo cognitivo.

Deste modelo, existe uma coisa que ainda hoje é discutida… A ligação entre a memória de trabalho e consciência.

O debate é sobre o pensamento em relação a estarmos conscientes ou não sobre toda a informação presente na memória primária.

Os primeiros estudos sobre as características da memória de curto prazo

Apesar do esforço de William James, até o ano de 1950 não existiam estudos sobre as características das memórias propostas por ele.

Data esta em que George Miller, um teórico cognitivo, mostrou evidências relacionadas a capacidade da memória de curto prazo ser limitada.

Miller sugeriu que uma pessoa pode manter somente sete itens ativos na memória de curto prazo e que essa limitação influenciava a performance em uma ampla gama de atividades mentais.

Inclusive ele referencia esse número, o sete, como “Número Mágico” em seu artigo intitulado “The Magical Number Seven, Plus or Minus Two” (traduzindo, seria algo como “O Mágico Número Sete, Mais Ou Menos Dois”).

O que ele sugere é uma variação entre 5 e 9 itens (7 ± 2).

Uma observação adicional importante é que, apesar da quantidade de itens mantidos na memória de curto prazo ser bastante limitada, a definição sobre o que é um item é flexível.

Foi sugerido por ele que esses itens podem ser agrupados em níveis mais altos de organização em um processo que ele chamou de “chunking”.

Sendo assim quatro dígitos quaisquer como, por exemplo, o “5”, o “2”, o “7” e o “6” de uma placa de carro poderiam ser agrupados em “5276”.

E o que determina a possibilidade destes itens serem agrupados é o fato deles terem um significado juntos.

No caso dos números “5”, “2”, “7” e “6” formarem a placa do seu carro, então, é natural que você guarde o número “5276” como um “chunk” (bloco).

Hoje, apesar de se concordar com a ideia de existir um número mágico para quantidade de itens que podem ser armazenados simultaneamente na memória de curto prazo, esse número não é o sete (como sugeriu Miller).

Novos estudos sugerem uma capacidade menor que sete, mas…

Esse novo “número mágico” foi encontrado em testes que os participantes tiveram orientações mais especificas.

Eles foram orientados a não usar estratégias, como “chunks” (blocos) ou repetições, ou utiliza-las de modo que pudesse ser controlado pelo experimento.

O novo número, ainda polêmico, gira por volta de quatro itens (4 ± 1).

Relação entre memória de curto prazo e memória de longo prazo

A noção da memória de curto prazo e a memória de longo prazo serem modos distintos de armazenamento foi adicionada no modelo proposto por Richard Atkinson e Richard Shiffrin (1968).

No modelo deles a memória de curto prazo servia como uma ponte para a passagem de novas informações até a memória de longo prazo.

Esse já foi um modelo bem influente pelo fato dele propor uma visão abrangente relacionada ao processamento de informações na memória.

No entanto ele perdeu sua força em favor do conceito de que a memória de curto prazo é mais dinâmica do que, simplesmente, servir como ponte para a memória de longo prazo.

Essa mudança de pensamento refletiu no aumento de uso do termo memória de trabalho.

Como comentado no início do artigo…

O termo passou a ser mais difundido por dar uma ênfase maior na manipulação de informação possibilitando a realização atividades cognitivas complexas.

Baddeley-Hitch: O modelo mais aceito

Por oferecer o maior número de evidências e uma série de experimentos o modelo mais aceito atualmente é o de Alan Baddeley e Graham Hitch.

Em 1974, após uma série de testes feitos, eles concluíram que a memória de curto prazo não servia somente como uma unidade de armazenamento.

Eles propuseram, então, um modelo multicomponente.

Esse modelo foi inicialmente formado de dois componentes auxiliares responsáveis pela manutenção de curto prazo da informação:

  • Ciclo Fonológico;
  • Esboço Viso-Espacial;

E um terceiro responsável pela supervisão da integração da informação e por coordenar os outros dois:

  • Central Executiva;

Mais tarde, em 2000, foi adicionado mais um:

  • Buffer Episódico;

Esse último, funciona como um armazenamento auxiliar e também um lugar para a integração de diversos tipos de informação (verbal e espacial).

Ciclo Fonológico (ou Laço Fonológico)

O Ciclo Fonológico é um subsistema que armazena a informação auditiva e cuida para que ela não seja perdida.

Para entender melhor…

Leia o número de telefone abaixo, silenciosamente, e mantenha ele como se fosse disca-lo. Depois de alguns segundos tente repeti-lo em voz alta.

359-1248

Se você realizou esse teste…

O que provavelmente aconteceu foi que ao ler os dígitos silenciosamente você “ouviu” o som deles dentro da sua cabeça.

Então, no tempo em que tentou mante-lo, ficou repetindo os números para você mesmo.

Foi como se você falasse os dígitos com a “voz da mente”, não foi?

Quando uma informação visual é captada, ela é transformada em sons dentro da sua cabeça. Obviamente informações auditivas, como a fala, não necessitam dessa transformação.

Esses sons são como uma caixa de ecos, um recipiente fonológico onde eles são brevemente repetidos antes de sumirem por completo.

Caso seja necessário, para evitar esse desaparecimento total, a articulação subvocal cuida de repetir a informação.

Dai que vem a ideia de ciclo.

Uma coisa interessante de se notar é que existem fatores, relacionados ao recipiente e a articulação, que afetam significantemente a performance da memória de trabalho.

Exemplos disso seriam:

  • Efeito da similaridade fonológica e…
  • O efeito sobre o tamanho da palavra.
Similaridade Fonológica

Esse efeito aparece quanto temos que manter na memória de trabalho sons de palavras que são parecidos.

Veja a sequência de letras abaixo:

  • G, C, B, P, D, V;

Todas elas tem uma terminação igual. Elas terminam com “e”.

Com isso acaba sendo mais difícil mante-las em mente do que essa outra sequência abaixo:

  • M, K, L, U, X , A;

Tente agora manter todas elas em sua mente:

  • G, C, B, P, D, V – M, K, L, U, X , A;

Você vai perceber que na primeira sequência existe uma chance muito grande de, por exemplo, você trocar a letra “C” pela letra “P”.

Tamanho Da Palavra

O efeito sobre o tamanho da palavra é ainda mais simples de se entender.

Tem a ver, simplesmente, com o tempo que se demora na pronuncia.

Ou seja, quanto mais demorado de se pronunciar a palavra, mais espaço ela ocupa na memória de trabalho.

Isso é até meio óbvio, mas, preferi comentar porque nem tudo é o que parece ser, não é mesmo?

Esboço Viso-Espacial

O Esboço Viso-Espacial é quem permite que possamos criar, em nossa mente, uma imagem e navegarmos por ela.

Imagine um lugar que você conheça bem. Pode ser uma sala, seu quarto, a cozinha… Só não pode ser o lugar em que você está agora.

Quais os objetos e/ou moveis que estão presentes nesse lugar? Pense em cada um deles na ordem, começando pela entrada.

Listou os objetos?

Se sim… Como fez isso? Você olhou para esse lugar com os “olhos da mente”?

Caso tenha feito dessa forma, então, você ocupou o seu esboço viso-espacial.

Eu estava até aqui pensando…

Quando aplicamos a técnica de memorização Palácio Da Memória estamos fazendo o uso intenso deste componente.

Existem testes que reforçam a existência desse componente e um que você pode fazer agora é o seguinte:

Tente cantar uma música (não precisa ser em voz alta) e escrever (ou digitar) os objetos (e a características dos mesmos) que estão na sua frente.

Faça o teste ai que eu espero 🙂

Conseguiu? Cantar e escrever?

Agora, ao invés de cantar, tente imaginar um lugar que você conheça bem (qualquer lugar).

E ao mesmo tempo em que você imagina (e caminha mentalmente por esse lugar), escreva alguns outros objetos (e características) que estão ao seu redor.

E ai? Qual foi o mais difícil? Escrever ao mesmo tempo em que canta ou escrever ao mesmo tempo que imagina?

Provavelmente foi escrever enquanto imaginava, não?

Como sua capacidade de navegação já havia sido comprometida com o que você estava imaginando, torna-se mais complexa a atividade de navegar entre objetos ao seu redor e descreve-los.

De qualquer forma… Gostaria muito de saber como foi essa experiência para você.

Deixe o seu comentário dizendo como foi, combinado?

Eu não podia deixar de comentar sobre a importância do Esboço Viso-Espacial para a leitura.

Nós não “fotografarmos” na memória todas as palavras que lemos. Só que…

Para compreender um texto, de forma coerente, é necessário que o cérebro retenha as quatro ou cinco últimas palavras lidas.

Esse componente também ajuda na manutenção de uma representação da página e seu layout. Facilitando tarefas como o mover os olhos com precisão a partir do final de uma linha para o início da próxima.

Central Executiva

A Central Executiva é o componente que mais diferencia este modelo dos outros.

Ela direciona a informação para um ou outro componente de armazenamento e coordena, integra e manipula a informação.

Mais especificamente, suas funções são:

  • Determinar quando a informação é depositada nos componentes de armazenamento;
  • Decidir em qual componente será armazenado cada tipo de informação (verbal ou visual);
  • Escolher sobre qual informação será mantida e qual não será;
  • Integra e coordena a informação entre os componentes de armazenamento;
  • Possibilita a inspeção e transformação, ou seja, manipulação cognitiva;
  • Focar a atenção em uma informação relevante e inibir outras informações distratoras;

A Central Executiva é quem faz todo o trabalho duro na memória de trabalho.

Buffer Episódico

Alguns anos mais tarde (em 2000), para suprir algumas limitações do modelo, foi adicionado o componente Buffer Episódico.

Ele é um sistema que auxilia no armazenamento quando os outros dois (Ciclo Fonológico e o Esboço Viso-Espacial) estão sobrecarregados e…

É nele que a informação (verbal e espacial), proveniente do meio externo ou da própria memória de longo prazo, é integrada.

O Buffer Eposódico veio para preencher pontos no modelo que ainda não estavam muito bem explicados pelo modelo inicial.

Um exemplo seria esse caso:

Leia a frase seguinte, depois feche os olhos e repita ela em voz alta:

O professor tentou explicar o difícil conceito de psicologia cognitiva para os estudantes, mas não foi totalmente bem sucedido.

Muito provavelmente você conseguiu repetir a frase em voz alta, não?

Agora tente a mesma coisa com a frase abaixo que contém as mesmas palavras e em mesma quantidade:

Tentou sucedido cognitiva explicar o difícil professor conceito para os psicologia de totalmente mas estudantes não foi bem o.

Bem mais difícil, não foi? Quase impossível considerando que você leu somente uma vez sem utilizar alguma técnica de memorização.

Nesse caso, o que nos permite manter uma informação na memória de trabalho quando o número de palavras é bem maior do que a capacidade da mesma?

Uma boa resposta, como explicado mais acima no modelo de Miller, é que podemos fazer com que vários itens virem um só, simplesmente, agrupando eles pelo seu significado.

Fica uma questão: Como e onde a informação é integrada?

No primeiro momento, achou-se ser no Ciclo Fonológico, pois, é ele quem guarda a informação verbal.

Só que a forma para agrupamento utilizada pelo Ciclo Fonológico é baseada em sons e não em significado.

Conclui-se então que o Buffer Episódico é o responsável.

Nessa pequena explicação do Buffer Episódico encerro, por esse artigo, essa parte teórica que acredito ser de grande valor para quem quer fazer bom uso da memória de trabalho.

Agora iremos falar mais da parte prática… Ou seja, dicas sobre o que fazer para utilizar bem a memória de trabalho.

A MEMÓRIA DE TRABALHO E O APRENDIZADO

A nossa capacidade de raciocinar, entender e aprender está completamente ligada a nossa memória de trabalho.

Por isso é necessário entender o seu funcionamento para que possamos tirar todo o proveito da mesma.

Existem técnicas que podemos utilizar para que possamos otimizar o espaço ocupado na nossa memória de trabalho no momento do aprendizado.

Só que antes vamos ver uma coisa curiosa e pouco intuitiva (eu, pelo menos, fiquei surpreso ao ver isso a primeira vez):

Raciocinar é difícil

Como já dizia o cientista cognitivo Daniel Willingham raciocinar não é fácil.

A questão é que raciocinar é um processo que demanda muito esforço, é lento e pouco confiável (pois, o resultado do raciocínio tem grandes chances de estar incorreto).

Para essa afirmação ele baseia-se também no fato de que nossa memória visual e nosso controle motor são muito mais eficientes que o raciocínio.

Quando vi sobre essa afirmação a primeira vez coloquei um pé atrás, mas, basta pensar um pouco sobre os motivos dele para ver que é verdade.

Um objeto que representa bem essa ideia é a calculadora.

Não pode aparecer uma conta matemática (até mesmo de dois dígitos) que nós, apesar de sabermos resolver de cabeça, recorremos a ela.

É por isso que eu concordo com Willingham na sua afirmação e acho que…

A última coisa que fazemos quando precisamos encontrar a solução para algo é raciocinar.

Alexandre, então como acontece esse processo de procurar e encontrar a solução para algo?

Isso é o que vamos ver agora.

Solucionando problemas

Quando estamos diante de um problema, nunca resolvido anteriormente, adotamos o seguinte processo:

“Memória De Longo Prazo → Ambiente → Raciocínio.”

Esse é um processo simples que termina, obviamente, no momento que a solução é encontrada.

Memória de longo prazo

A primeira coisa é buscar a solução na memória de longo prazo.

Soluções de memória de longo prazo são as melhores: rápidas, baratas e confiáveis.

Isso porque, se você já resolveu o problema alguma vez, não vai precisar passar pelo processo de raciocínio novamente. Vai direto na conclusão que está na memória de longo prazo.

Basta que ativemos o schema correto. A probabilidade de erros é muito baixa.

Para quem não sabe o que seria um schema vou dar um explicação rápida…

Schemas são a maneira como nosso cérebro organiza o conhecimento.

E a partir desses schemas somos capazes de extrair sentido de nossas ideias.

Imagine você explicando o que é um smartphone para alguém que nunca viu e não sabe o que é.

Sua explicação formaria, na cabeça dessa pessoa, um schema.

Um schema é, basicamente, uma informação organizada.

Ambiente

Caso a solução não esteja em nossa memória de longo prazo, então, temos que busca-la no ambiente.

Esse seria o caso de você utilizar a internet para pesquisar, fazer uma conta na calculadora, dar uma espiada na cola feita para aquela prova difícil 🙄

Raciocínio

Caso a resposta não esteja na memória de longo prazo e não tenha sido possível encontra-la no ambiente, então, o jeito é pensar.

A primeira alternativa que temos é a de encontrar ou criar analogias com alguma coisa que já conhecemos.

Você já deve ter passado pela experiencia e já deve saber que analogia é uma excelente forma de entender ou explicar algo.

Se nenhuma analogia puder ser feita, então…

Temos que trabalhar em modo controlado usando energia mental sob limites da capacidade de processamento e, principalmente, lidar com a grande chance de estarmos errados.

Capacidade da memória de trabalho

Muito provavelmente você já deve ter passado pela situação de começar a estudar algo que estava até indo bem de início, mas, de repente a coisa muda de figura e nada mais parece fazer sentido, não é mesmo?

Se nunca aconteceu com você… Maravilha!

Caso já tenha passado por isso, pode ficar tranquilo porque é normal.

Veja o meu caso… Eu sou desenvolvedor de software e cheguei a desistir 2 vezes de aprender a programar.

Isso porque eu não entendia coisa alguma de computador e já queria aprender programação.

Ou seja, a carga da minha memória de trabalho estava muito grande, mas, como eu imaginava que era algum tipo de incapacidade minha, então, eu acabava desistindo.

Como já vimos, nossa memória de trabalho tem uma capacidade bastante limitada.

Essa limitação, como também já falamos, gira em torno de 3 e 5 itens (4 para sermos mais precisos).

Sem contar que o tempo de duração desses itens na memória de trabalho é de mais ou menos 20 segundos.

Da mesma forma que a quantidade, a duração dos itens na memória de trabalho também é bastante discutível. Pois, como na quantidade, a duração depende de um contexto.

Por essa limitação, muitas pessoas (como chegou a ser o meu caso) desistem de aprender o que desejam (ou o que precisam) por achar que são incapazes.

Agora você sabe que isso é normal, mas…

O que fazer quando nossa memória de trabalho estiver sobrecarregada?

Algumas coisas podem ser feitas sobre isso e veremos a seguir.

Aliviando a carga da memória de trabalho

Existem alguns pontos a serem observados no momento em que sentimos a nossa memória de trabalho sobrecarregada.

A primeira coisa é sobre o seu conhecimento prévio.

Imagine uma pessoa que deseja aprender equações matemáticas sem saber fazer contas de multiplicar e dividir.

Seria muito difícil, não seria?

Na maioria dos casos essa não é uma coisa simples de se identificar, mas, é bom que você esteja atento a isso.

Um segundo ponto a se observar é o seu material de estudos.

Caso o estudo não esteja fluindo com o seu material atual, tente buscar outras fontes. Talvez o simples fato de ter um ponto de vista diferente acenda uma luz para você.

Outra coisa super importante é cuidado com as distrações na hora de aprender.

Acontece que as distrações acabam por ocupar espaço na memória de trabalho que deveria estar sendo usado para processar a informação estudada.

Para um aprendizado efetivo é necessário que você elimine as distrações para conseguir se concentrar nos estudos e ocupar a memória de trabalho apenas com informação relevante.

Um último ponto que quero passar aqui é sobre o uso de técnicas de estudos ineficientes.

Pesquise por novas técnicas de estudos e veja com qual delas você melhor de adapta.

Construindo blocos (chunks)

Um bloco (também conhecido como “chunk”) é uma informação compactada que facilita o acesso pela mente.

Quanto mais blocos formamos, melhor fica a nossa capacidade de compreensão e até mesmo nossa criatividade.

Uma analogia bacana de se fazer para explicar o que quero dizer quando falo em construir blocos (ou “chunks”) é a diferença entre uma pessoa que está iniciando em uma profissão e uma outra já experiente (uma expert).

Outra analogia que pode ser feita é entre uma pessoa que já dirige a muitos anos e uma que está aprendendo.

A pessoa que está aprendendo, as vezes, tem que olhar no velocímetro para saber quando mudar de marcha enquanto que, quem é experiente, faz isso isso sem notar.

Para formar um bloco durante seus estudos é preciso que você observe três coisas:

  • Se está conseguindo manter sua atenção;
  • Se está realmente compreendendo ou se está se iludindo;
  • Se está praticando;
Atenção

Sobre a atenção… É possível estudarmos algo simples com interferências de ambiente como, por exemplo, televisão ligada, música alta, interrupções, etc., mas…

Quando temos que estudar algo complexo a coisa já muda de figura.

Não fique achando que, só porque aprendeu algo em um ambiente cheio de interferências, vai ser possível aprender qualquer coisa assim.

Compreensão

O outro ponto é sobre a compreensão.

As vezes estudamos algo que pensamos ter compreendido, mas, só que quanto chega o dia de utilizarmos (em uma prova, por exemplo) não nos saímos bem.

Evite esse tipo de coisa simplesmente se testando. Principalmente se testando sem ajuda.

Obviamente, não há problemas em pedir a ajuda de alguém para a compreensão de algo, mas…

Para saber se realmente entendeu o que está estudando, se teste sem pedir ajuda.

Isso servirá para que você não se iluda pensando estar preparado para, por exemplo, uma prova.

Pratique

Por último: pratique.

Somente a compreensão não garante a construção de blocos enraizados em sua memória de longo prazo.

Praticando você saberá como usar e, não menos importante, quando usar.

Melhor ainda será se utilizar a prática deliberada para isso.

Uma explicação rápida para quem nunca viu esse termo seria, simplesmente, focar em praticar a parte que você tem mais dificuldades.

Por que formar blocos é importante?

Lembra que conversamos sobre a nossa memória de trabalho ter somente capacidade para 4 itens?

Então…

Agora imagine alguém te explicando algo que contenha, para você, quatro conceitos completamente novos.

Seu raciocínio vai começa trabalhar como um louco tentando encontrar a relação desses itens e formar blocos.

Lembrando que você tem menos que 20 segundos para isso!

Caso você não consiga relacionar esses itens uns com os outros e, principalmente, com itens (ou blocos) já formados na memória de longo prazo, então, o que vai acontecer é que você precisará de uma nova explicação.

Talvez baste somente ouvir a mesma explicação, mas, provavelmente, precisará de algo mais detalhado.

Pensando agora que, dos quatro conceitos, três deles sejam possíveis de relacionar com blocos já construídos anteriormente…

Dessa forma seu raciocínio terá muito menos trabalho e certamente você vai conseguir pegar esse novo conceito.

Isso porque os blocos que são buscados na memória de longo prazo não tem o limite de 20 segundos.

Com isso você teria um cenário ideal que é o de ter mais tempo para processar menos coisas. Muito bom, não é mesmo?

CONCLUSÃO

Espero ter passado para você sobre a importância da memória de trabalho e o quanto ela é importante para o seu aprendizado.

Vimos nesse artigo que memória de trabalho é uma parte do sistema de memória humano de capacidade bem limitada.

Passamos pela evolução do modelo desse sistema até chegarmos no modelo mais aceito que é o de Baddeley-Hitch (1974).

Aprendemos sobre a relação entre a memória de trabalho e aprendizado, os passos que seguimos antes de optar por raciocinar e também sobre a construção de blocos (ou “chunks”).

Esse foi um artigo com muita informação. O assunto é bem grande e ainda tem muitas coisas mais para falar sobre. Aos poucos vou passando mais informações sobre esse assunto para você.

Abraço,

Alexandre Afonso

Crédito imagem: freeimages

Fontes